2009.12.23 (00:00) Açores
Gil Jorge, presidente da Direcção da Unileite e um dos principais responsáveis da LactAçores fala, em entrevista ao Correio dos Açores do investimento de ampliação da fábrica dos Arrifes, do desenvolvimento empresarial da LactAçores e de diversos outros aspectos relacionados com a fileira do leite nos Açores.
Correio dos Açores - Quais foram as razões que levaram à ampliação da fábrica?
Gil Jorge (presidente do conselho de administração da ‘UNILEITE’ – A actual fábrica completa agora um ciclo de dez anos. E a União de Cooperativas chega ao fim deste ciclo com uma boa situação financeira. Além disso, entendemos que a lavoura de São Miguel e até a lavoura açoriana precisam de ter uma maior quota na sua própria fábrica. Por isso, partimos para este projecto de ampliação. E quando se fala numa ampliação com esta dimensão, temos de ter uma visão relativa aos próximos 10 anos. E a nossa opinião é que é possível estarmos outra vez no máximo da produção (150 milhões de litros de leite) dentro de 10 anos.
CA: A produção de leite nos Açores está limitada. As fábricas que existem laboram toda a quantidade de leite produzida. Neste cenário, a ‘UNILEITE’ vai tirar leite às outras fábricas ou acredita que a produção de leite pode aumentar?
GJ: Acredito que a produção de leite possa aumentar e também acredito que, dos produtos que já se fazem, ainda há muito produto que vai para leite em pó. E a ‘UNILEITE’ poderá ter algum produto do leite em pó e transformar em valor acrescentado. Já no dia 8 de Janeiro vamos apresentar novos quatro produtos de valor acrescentado.
CA: Quais são?
GJ: Os produtos já estão estudados e as embalagens criadas e vão ser apresentados no dia 8, o dia do lançamento da obra, com a presença do senhor presidente do Governo, Carlos César.
‘Lactaçores’ foi projecto de “grande visão”
CA: Sente que há possibilidade de crescer o mercado de produtos lácteos fabricados na Região?
GJ: Os mercados conquistam-se e também é preciso ver que as grandes superfícies vêem e olham para as instituições conforme a sua dimensão. Quando se criou a ‘LACTOAÇORES’ essa dimensão foi alargada e com a ampliação da fábrica da ‘UNILEITE’ vamos ficar com outra dimensão. Mas o mercado dos lacticínios não é fácil e o crescimento vai ter de ser sustentável. O crescimento nos últimos anos tem sido de 10 milhões de litros de leite ao ano. Se estamos a trabalhar 70 milhões, nos próximos 10 anos, chegamos, com certeza, perto dos 150 milhões.
CA: O projecto ‘LACTAÇORES’...
GJ: ...Aconteceu no dia certo, em 2002/2003, altura em que se começou a pensar o projecto. Tivemos um apoio da parte do governo regional e penso que todas as pessoas que trataram deste projecto foram de grande visão. Tinham a certeza de que se não estivéssemos mais bem organizadas, na globalização, teríamos muitas dificuldades. Há a convicção de que cada ilha por si é pequena. A ilha de São Miguel é pequena em relação à Europa, e se não aparecemos no mercado de uma forma mais organizada, não concorrendo entre nós, o que seria da lavoura dos Açores e de São Miguel?
Isso para dizer que a ‘LACTAÇORES’ apareceu na hora certa, o projecto tem tido êxito, tem tido muita organização e tem juntado um pouco as ilhas dos Açores. Neste momento já temos quatro ilhas e há a possibilidade de entrarem outras.
2009 “foi um ano complicado”
CA: Afirmou que 2009 foi um bom ano para a ‘UNILEITE’. No entanto, 2009 também foi um ano de alguma conflitualidade com a lavoura por causa do preço do leite. Nesta conflitualidade, apesar de ter estado sempre ao lado da lavoura, a União de Cooperativas vai ter resultados positivos este ano?
GJ: Este projecto de ampliação da fábrica não resulta só do trabalho de 2009. O que nos leva a este projecto é o trabalho dos últimos 10 anos de sucesso da ‘UNILEITE’. No entanto, o ano de 2009 foi complicado. Não vai haver resultados negativos, mas vão baixar muito, com certeza. Isso acontece a todos os níveis e em todas as empresas. Tínhamos idealizado o projecto de ampliação em 2008 e por 2009 ser um ano de crise, não íamos cruzar os braços. O facto é que não cruzamos e vamos arrancar agora.
CA: A indústria de lacticínios de São Miguel tem tratado bem a lavoura?
GJ: Esta é uma pergunta muito complicada. Eu vou falar pela ‘UNILEITE’ porque nós trabalhamos com toda a indústria de São Miguel. Portanto, a ‘UNILEITE’ tem feito e dito sempre em Assembleia Geral que tem pago o preço possível e em ano de crise tem pago quase o impossível. Não é novidade, é público, que o leite na Europa tem estado abaixo dos preços da ‘UNILEITE’. Por exemplo, podemos ir a vários países da Europa em que o leite, no ano de 2009, esteve a 18 cêntimos, 19 cêntimos e nós tivemos um preço-base que nunca foi abaixo de 23,70 cêntimos. Neste momento, é 24 e depois, juntando a qualidade e o frio, temos pago, em média, 27 cêntimos e meio por litro. Temos feito o melhor possível e temos ‘dividido o mal pelas aldeias’, temos repartido um pouco as dificuldades da lavoura com a UNILEITE. Penso que, em São Miguel, a lavoura ainda assenta em boas instituições e consegue manter os preços acima dos praticados na União Europeia.
FONTE: Correio dos Açores
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