 2010.01.04 (00:00) Espanha
O sector lácteo é notícia habitual na maioria dos meios de comunicação já que os produtores de leite europeus enfrentam a maior crise da sua história. Uma situação que está a provocar no sector um estado de convulsão desconhecido na Europa até agora e que está a dar origem a contínuos protestos em diversos países, com especial destaque para a Alemanha e a França, os maiores produtores de leite no seio da União Europeia.
A crise que não afecta exclusivamente os produtores, incide também, de forma muito significativa, sobre a indústria de lacticínios espanhola e que coloca a fileira face ao principal problema do sector primário: a distribuição.
Para tentar esclarecer esta situação, ouvimos a opinião de Luis Calabozo, um economista com larga experiência no sector primário e nas relações com a União Europeia. Desde há quatro anos director-geral da Federación Nacional de Industrias Lácteas (FeNIL), é, pois, uma pessoa conhecedora do sector e uma voz autorizada para algumas pistas sobre a actual conjuntura sectorial.
Primeira Parte: A Produção
La-Leche (L-L): Ninguém duvida que estamos a viver uma crise global. E, com excepção do nosso governo, ninguém duvida que a Espanha sofreu uma crise mais profunda do que outros países da UE. O gado de carne, no qual o preço das rações incide em maior medida do que no leiteiro, apesar da crise económica, parece atravessar um bom momento. Pode descrever os principais factores que determinam a crise do sector leiteiro?
Luis Calabozo (LC): O que chamamos de crise do sector leiteiro, hoje, é a fase descendente de um fenómeno que, na Europa, começamos a sentir a partir dos acordos de Luxemburgo [reforma intercalar da PAC, de 2003], mas com o qual se vem convivendo, a nível global, de forma mais ou menos recorrente, embora não tão acentuada como a partir de 2007. Esta é a volatilidade dos preços no sector dos lacticínios. Assim, se analisarmos as origens e causas da volatilidade dos preços podemos começar a explicar os factores subjacentes a esta crise no sector.
Olhando para o alcance e a frequência das flutuações dos preços do leite em pó e da manteiga como indicadores de preço do leite como matéria-prima, verificamos que tanto a UE como os mercados internacionais, combinaram períodos de relativa estabilidade com outros de maior volatilidade ao longo dos últimos 20 anos. No entanto, a volatilidade nos mercados globais foi 3,5 vezes maior para a manteiga e 2,3 vezes maior para o leite em pó desnatado. Além disso, a volatilidade é maior nos dois mercados, ao longo da última década, aproximando-se a União Europeia cada vez mais do comportamento dos mercados mundiais. Um inquérito à escala da indústria europeia conclui que este é o cenário mais provável em termos de futuro.
Na realidade, as causas da volatilidade dos preços no sector dos produtos lácteos estão bem estabelecidas na literatura económica e referem-se a uma combinação de especificidades do sector, nomeadamente a procura inelástica e as alterações não antecipáveis do lado da oferta, de modo que muito pequenas variações do lado da procura e da oferta podem provocar variações de preços muito significativas. Isso ocorreu em 2007, com a `explosão' da procura nos mercados emergentes, juntamente com a queda na produção dos países produtores do hemisfério sul. O oposto ocorreu a partir 2008.
Na União Europeia estes efeitos foram sentidos mais fortemente, como resultado de mudanças na política leiteira consubstanciados no acordo do Luxemburgo.
L-L: Qual é a relação entre a crise no sector leiteiro e a crise económica? É uma consequência da crise económica mundial ou é uma crise independente, que se teria produzido de igual forma, mesmo com um quadro económico global favorável?
LC: É claro que a crise económica mundial acentuou a queda dos preços do leite a nível global. Na verdade, a situação actual é explicável pelos modelos tradicionais. Podemos observá-lo, por exemplo, na evolução dos preços mundiais do leite em pó desnatado ou do PIB mundial, bem como nas alterações na produção de leite média anual dos países da Oceânia.
L-L: Qual tem sido a diminuição do consumo real do leite e dos produtos lácteos?
LC: Como referido anteriormente, não é necessária uma quebra significativa no consumo para produzir movimentos significativos nos preços, de tal forma que o que se verificou foi essencialmente um abrandamento do crescimento da procura que coincidiu com a recuperação das produções, a nível mundial.
Analisemos o passado recente. Em Outubro de 2007, os preços do leite pagos na origem ao produtor atingiram um pico histórico, chegando aos 48 cêntimos por litro, para além das ajudas da PAC. Desde então os preços têm caído progressivamente. De facto, em julho de 2009, o preço médio pago no campo, em Espanha, foi de 28 cêntimos por litro.
LL: Até quando irão cair os preços e até onde chegará essa queda?
LC: É de notar que a alta de Outubro de 2007 se manteve, em Espanha, até Janeiro de 2008, momento em que realmente se entrou em declínio em termos percentuais proporcionais ao nível do boom anterior. O aumento do preço médio mensal de leite foi de 52 por cento entre Abril e Dezembro de 2007, caindo o início de 2008 e Julho de 2009 37 por cento, para colocar-se em Setembro passado, no mesmo nível de Abril de 2007.
É difícil quantificar, quando e onde se verificará a mudança de tendência, no entanto, a questão passa por perguntar como se forma o preço do leite para poder antecipar os seus movimentos. Na ausência de mecanismos de regulação do mercado, todos concordam que a tendência dos preços do leite será marcada pelo preço dos produtos industriais e assim o demonstram a correlação das séries históricas de preços dos mesmos. Isto resulta da facilidade com que, a nível global, se pode substituir entre leite cru e produtos lácteos industriais, como matéria-prima para produtos de consumo. E já dissemos antes que pequenas mudanças na oferta produzem significativos movimentos de preços.
Claro que, se algo foi demonstrado com esta onda de preços de 2007, 2008, 2009 é que o preço do leite é independente da produção na Europa, ou seja, da quota leiteira. Mas, em qualquer caso, o que parece claro é que os fundamentos do preço do leite no nosso país se formam fora da oferta espanhola.
L- L: Como é possível deter esse declínio?
LC: Fora do mercado, são os preços de intervenção os únicos que se mostraram capazes de modificar esta tendência. Outra coisa é que, ante este novo cenário de maior volatilidade para a Europa, devemos aprender a conviver e a gerir a volatilidade da maneira menos prejudicial possível, já que não está nas mãos dos operadores o controlo dessa mesma volatilidade.
FONTE: La Leche |