2010.07.19 (00:00) Portugal
Nesta conversa, anterior ao início da Agroleite, que decorreu entre 15 e 18 de Julho, José Oliveira mostra-se convicto que, com a mudança de políticas operada no Ministério da Agricultura é possível recuperar o sector. O aumento dos valores pagos à produção e as ajudas para fazer face à questão do licenciamento das explorações são fundamentais para salvar um sector fundamental para o País.
Gazeta Rural (GR): Como antevê a edição deste ano da Agroleite?
José Oliveira (JO): A Agroleite de 2010 vem na sequência da edição do ano passado. A crise continua e na agricultura tem-se acentuado, principalmente do sector leiteiro. Portanto, é uma edição que se realiza num momento de crise e, nesse sentido, espero que em termos de participação do público não ande longe daquilo que se passou em 2009. Se assim for já é bom. Temos todos os espaços ocupados, o que é bastante bom para a época que atravessamos.
GR: Está a falar, principalmente, das dificuldades que o sector atravessa, nomeadamente com a baixa do preço do leite pago aos produtores?
JO: É verdade. A descida dos preços pagos à produção verificou-se de uma forma muito acentuada em 2009 e esperava-se que no primeiro semestre de 2010 houvesse um pequeno ajustamento. Infelizmente isso não aconteceu, porque as fábricas continuam com excesso de recolha de leite, continuam a secar leite e isso tem originado a que não seja possível haver aumento do preço. Penso que agora, ao longo do segundo semestre, isso seja possível haver, porque, na realidade, o sector leiteiro atravessa a maior crise de que há memória.
Houve já muitos agricultores que abandonaram a produção, outros faliram e, portanto, só com um aumento do preço do leite poderemos estancar este abandono da actividade, que começa a ser bastante preocupante.
GR: Tem havido diálogo com o ministério? Qual a resposta a essas preocupações?
JO: Convém referir que a relação que temos tido com o actual Ministro da Agricultura nada tem a ver com o que se passou com o anterior. Muita da crise que hoje se abateu sobre o sector agrícola é resultado das políticas erradas que o anterior ministro levou a cabo. Destruiu completamente toda a máquina do Ministério, o que prejudicou também todo o sector agrícola nacional.
Este ministro tem um posicionamento completamente contrário, que é dialogar com as organizações, entendendo que estas são parceiras importantes para procurar encontrar soluções que permitam atenuar estas dificuldades. Além disso, pôs o ProDer a funcionar, o que não aconteceu com o ministro anterior.
É evidente que a crise é profunda e não basta só a boa vontade, é preciso muito mais do que isso. É necessário que os preços subam na produção e o actual ministro tem tentado junto dos responsáveis das grandes superfícies, no sector ligado à compra dos produtos agrícolas, incentivá-los a comprarem produtos nacionais. Porém, é uma situação complicada porque não tem grandes meios para intervir.
GR: Com esta alteração política, ainda se vai a tempo de recuperar o sector?
JO: Penso que sim, que ainda se vai a tempo. Como sabe, o sector leiteiro, para além da crise que atravessa, tem outro problema, que é o licenciamento das explorações pecuárias e o cumprimento das normas do meio ambiente e do bem-estar animal. Isso implica, em alguns casos, investimentos avultados e o instrumento a que os agricultores podem deitar mão é ao Proder. Como referi, há neste momento vontade política do Ministério em apoiar estes investimentos, pelo que espero que na prática isso se concretize, de modo a evitar e a estancar esta sangria que tem vindo a acontecer no último ano.
GR: Há um ano atrás dizia-me que o Proder era um fato à medida da agro-indústria. Entretanto, mudou alguma coisa?
JO: Para já ainda não há dados muito concretos sobre essa questão. O que referi nessa altura é que a agro-indústria tinha levado, nos quadros comunitários anteriores, mais de 70% das ajudas a fundo perdido e por isso é que também a produção está neste estado, descapitalizada e com necessidades de grandes investimentos, porque as ajudas não eram as necessárias. Espero que, e já fiz esse alerta uma vez, neste quadro comunitário essa tendência se inverta e haja uma maior atenção no sentido de apoiar os investimentos ligados à produção, em detrimento dos da agro-indústria, porque já levaram, nos quadros anteriores, a fatia mais importante dessas ajudas. Agora, mais do que nunca, as ajudas à produção são importantes para fazer face aos investimentos que vão ter que ser feitos até finais do próximo ano.
GR: Que perspectivas tem para o futuro do sector, tendo em conta que a partir de 2013 vão desaparecer as quotas?
JO: Sempre referi que não acreditava que as cotas terminassem em 2013, porque, se isso acontecer, será um desastre para a produção de leite em muitos países. Hoje, felizmente, a análise feita já não é a mesma de há dois anos atrás e verificou-se que esse era um caminho errado, porque com um sistema de quotas e só com um aumento de 2%, permitido pela União Europeia, originou um excesso de leite, que fez com que os preços baixassem para os valores que nunca se verificaram. Um sistema livre, em que não haja um sistema de quotas, é a destruição da produção, principalmente em Portugal. Desse modo, desaparecia praticamente a produção de leite, ficariam apenas algumas, poucas, grande explorações no País.
FONTE: Gazeta Rural |